ESPECIAL: O PRECONCEITO QUE ESTÁ (TAMBÉM) NO GIBI


Imagem de "Superman: Son of Kal-El", que mostra Jon Kent com seu namorado Jay Nakamura (Reprodução/ DC Comics)


Por João Gabriel Silva (com a colaboração de William Lourenço)

Há cerca de três semanas, uma notícia chocou o mundo autointitulado conservador: o filho do Superman, grande herói dos quadrinhos da DC Comics, foi declarado bissexual. Não o Clark, mas o Jon Kent. A imagem dele beijando outro menino revoltou este público, que diz que "esta cena influenciará negativamente as crianças". Os mesmos que acreditam, vale a nota, que é possível um homem com capa sair voando por aí. Tanto que os artistas responsáveis pela revista "Superman: Son of Kal-El" precisaram de escolta policial para não serem atacados na sede da empresa, em Burbank, estado americano da Califórnia.
O jogador de vôlei Maurício Souza e o deputado federal Eduardo Bolsonaro (sem partido) se manifestaram em suas redes sociais, dizendo que isto "destruiria a masculinidade dos leitores". Maurício teve seu contrato com o Minas Vôlei rescindido após sua manifestação. Não à toa que posturas assim são chamadas de preconceituosas.
O preconceito é um juízo antecipado  que se manifesta em uma atitude discriminatória contra pessoas, gostos, crenças e tendências de comportamento. As formas mais comuns de preconceito são a social, racial e sexual. E sim, todas elas podem evoluir para a agressão verbal e física, e até à morte.
Somente no Brasil, no ano passado, 224 pessoas da comunidade LGBTQIAP+ foram mortas unicamente pela sua orientação sexual. Esses dados foram coletados pelo Observatório de Mortes Violentas de LGBTI+, feito pelo Grupo Gay da Bahia e Grupo Acontece Arte e Política LGBTI+. Se for ver desde 2001, o total de mortos pertencentes a esta comunidade chega a mais de cinco mil.
O Supremo Tribunal Federal decidiu, em 2019, que o crime de homofobia (toda prática de aversão a esta comunidade que possa resultar em morte, unicamente pela sua orientação sexual) é equivalente ao crime de racismo (mesma prática de aversão, só que à comunidade negra, unicamente pela cor de sua pele) que já é previsto na Constituição Federal como inafiançável.

SIGNIFICADO DO LGBTQIAP+

O que é cada letra da sigla LGBTQIAP+?
Essa é uma questão bem relevante no mundo atual, onde esse tema têm se transformado em um verdadeiro campo de batalha na busca por espaço em uma sociedade ainda conservadora. 
O dia internacional do Orgulho LGBTQIA+ é comemorado no dia 28 de junho. Muito se fala sobre essa questão, mas mesmo assim pouco se conhece o significado de cada letra dessa sigla. Então vamos tentar entender melhor isso.

L = Lésbicas 
São mulheres que sentem atração afetiva/sexual pelo mesmo gênero, ou seja, outras mulheres. 
G = Gays 
São homens que sentem atração afetiva/sexual pelo mesmo gênero, ou seja, outros homens. 
B = Bissexuais 
Diz respeito aos homens e mulheres que sentem atração afetivo/sexual pelos gêneros masculino e feminino. Ainda segundo o manifesto, a bissexualidade não tem relação direta com poligamia, promiscuidade, infidelidade ou comportamento sexual inseguro. Esses comportamentos podem ser tidos por quaisquer pessoas, de quaisquer orientações sexuais.
T = Transgênero
Diferentemente das letras anteriores, o T não se refere a uma orientação sexual, mas a identidades de gênero. Também chamadas de “pessoas trans”, elas podem ser transgênero (homem ou mulher), travesti (identidade feminina) ou pessoa não-binária, que se compreende além da divisão “homem e mulher”.
Q = Queer
Pessoas com o gênero ‘Queer’ são aquelas que transitam entre as noções de gênero, como é o caso das drag queens. A teoria queer defende que a orientação sexual e identidade de gênero não são resultado da funcionalidade biológica, mas de uma construção social.
I = Intersexo
A pessoa intersexo está entre o feminino e o masculino. As suas combinações biológicas e desenvolvimento corporal – cromossomos, genitais, hormônios, etc – não se enquadram na norma binária (masculino ou feminino).
A = Assexual 
Assexuais não sentem atração sexual por outras pessoas, independente do gênero. Existem diferentes níveis de assexualidade e é comum essas pessoas não verem as relações sexuais humanas como prioridade.
P= pansexual
O termo é composto pelo prefixo pan-, que significa tudo e a palavra sexualidade, que indica que as pessoas que se consideram pansexuais não restringem sua sexualidade ao gênero oposto (heterossexualidade), ao mesmo gênero (homossexualidade) ou gêneros binários, masculino e feminino (bissexualidade).
O símbolo de “ mais ” no final da sigla aparece para incluir outras identidades de gênero e orientações sexuais que não se encaixam no padrão cis-heteronormativo, mas que não aparecem em destaque antes do símbolo. Algo que merece ser dito é que existem mais letras e muitos outros significados uma vez que a sexualidade é fluída.

INCLUSÃO E MULTIVERSO

A DC Comics, em agosto, já havia publicado uma HQ em que o Robin, parceiro do Batman, se assumia bissexual. Ele, aliás, sempre foi alvo de muitas piadas hoje taxadas como homofóbicas, devido à sua parceria e proximidade com o homem-morcego.
Assim como no caso do filho do Superman, o Robin bissexual se trata de outra pessoa: o Tim Drake. A DC vem trabalhando com o conceito de multiverso: universos paralelos e distintos onde personagens referência são pessoas diferentes, com histórias de vida diferentes. O Robin considerado o original, que surgiu em 1940, se chama Dick Grayson, só para exemplificar. O Jon Kent se torna sim o Superman, mas em um universo diferente do seu pai.
Estas inserções servem como forma de incluir a comunidade LGBTQIAP+ nas histórias em quadrinhos, séries, animações e afins, e dar mais opções de representatividade a estas pessoas. A Marvel fez processo semelhante com o Loki na série live-action homônima do Disney+ lançada este ano. Embora forçada para alguns, a estratégia visa atrair este público a consumir seus produtos.

CONCLUSÃO

Essa ideia de "invasão" ou de "ideologia de gênero" pregada pelos ditos ultra-conservadores só existe na cabeça deles.
Se essas pessoas existem em nossa sociedade real, porque não colocá-las nas artes, nas telas, nos quadrinhos? Porque não dar a elas a oportunidade de serem titulares das histórias?
O mesmo pensamento tacanho de hoje em relação à comunidade LGBTQIAP+ foi usado, por exemplo, contra as mulheres enquanto protagonistas de histórias em quadrinhos. A Mulher Maravilha, de 1941, começou a quebrar essa resistência do público, antes predominantemente masculino, e é, até hoje, uma das maiores heroínas da história.
Fato é que o respeito e a inclusão devem ser feitos e praticados por todos nós, em todas as plataformas e em todos os âmbitos de nossa sociedade. Cada um com seu espaço. Por que não?

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